1.2.12

meu pai dizia, orgulhoso das batalhas que venceu, "o que não me mata, me fortalece".
eu, sua filha, venci umas umas batalhas, perdi outras, fugi de algumas. então eu sei que o que não me mata pode me quebrar. até agora não morri, mas tenho uns caquinhos quebrados - colados, é verdade. mas inteira, inteira, já não sou.

16.11.11

mais um 15 de novembro veio e passou. e hoje, 16, foi o dia do seu enterro. da noite que passei em vigília, com duas pessoas tão queridas na época, ana lúcia e tetê, que foram suas fisioterapeutas. ana lúcia, prima distante, tetê, sumida depois de sua morte.

aquela noite das mais longas. eu, você, um caixãozinho de criança. um velho, uma criança, uma menina de vinte e poucos, atravessando uma noite que virou manhã e eu não vi a mudança. tantos anos se passaram, pai, aquela noite ainda está aqui, guardada.

como estão guardadas todas as lágrimas, todos os gritos, toda a tanta dor que eu aperto, espremo, copacto e prendo na caixinha. e a caixinha fica ali, guardada, às vezes exposta, às vezes soterrada dentro de mim.

não quero falar muito. mas sempre falo um pouco e sempre falta muito. se eu pudesse, pai. se eu pudesse.

30.8.11

ultimamente, dei de pensar no que eu mudaria se eu pudesse mudar a vida que eu tive a partir da doença de papai.

ainda não decidi o que mudaria.

se eu simplesmente faria papai não adoecer, e ter pai até hoje, e ter uma vida tão, mas tão diferente que não consigo pensar nela, não consigo imaginar,

ou se eu faria papai adoecer uma semana antes, ou três meses depois, tudo para que eu não enfrentasse a noite do seu AVC sozinha com ele, mamãe viajando, minha irmã com a filha doente com sarampo.

o timing da doença de papai foi cruel.

então. se eu não pudesse evitar a doença, se eu pudesse mudar a data. se eu não pudesse evitar o derrame, eu faria que ele morresse mais rápido.

cinco anos de coma foi demais.

para ele, para mim e para minha mãe, que vinte anos depois ainda sofre os efeitos do tempo em que carregou o mundo nas costas.

eu seria mais misericordiosa, deus. meu pai morreria em algumas semanas. o nosso sofrimento seria intenso, concentrado, mas seria de uma vez.

cinco anos morrendo é tempo demais para qualquer um.

isso, se eu pudesse mudar alguma coisa.

vinte anos se passaram, as coisas foram como tiveram que ser. mais da metade da minha vida sem pai. a vida inteira pela frente sem pai. minha mãe doente até hoje pelos anos de medo, responsabilidade, grana curta e solidão. as coisas foram como tiveram que ser, e eu não posso mudar nada, como não pude na época.

ah, nós rezamos.
rezamos tanto.
com tanta fé, com tanta vontade, rezamos para ele melhorar.
fizemos promessas.
rezamos com os católicos, rezamos com os espíritas, rezamos com os evangélicos.
por todos os lados, enviamos nosso pedido: que papai fique bom. que tudo volte ao normal.
depois, rezamos para ter força. o caminho era árduo.
rezamos, rezamos, rezaram por nós.
em muitas cidades, muitos amigos de amigos, gente que a gente não conhecia.
correntes de oração por meu pai, por nossa família.

desnecessário dizer que nossos pedidos deram com os burros n´água.
ele não ficou bom. cinco anos de tempestade nos aguardavam, nos envolveram, nos afogaram.

a gente respirava quando dava - e fingia uma certa normalidade.

como esses pedidos foram atendidos? como essas orações funcionaram?
talvez nós tenhamos caído do trapézio e as orações foram a rede que impediu que nos espatifássemos no chão.

disso tudo, sobrou que eu não acredito mais como eu acreditava.
eu agora olho o deus com certa desconfiança.
porque tudo veio muito diferente do que a gente pediu. e admitir aqui, publicamente, fraqueza e medo é ser, obviamente, alvo para pedradas.

ninguém pode ser tão verdadeiro e não levar pedrada. ninguém pode admitir, na cara da internet, que teve medo e que já não acredita tanto assim.

a gente vive num mundo cheio de certezas demais. então eu venho aqui para dizer que tenho dúvidas. e que não saberia determinar o melhor caminho para a vida da minha família se me fosse dado o poder da escolha.

então, me basta me recolher à minha insignificância.

e celebrar a sobrevivência.

porque eu estou aqui, sobrevivente, com minhas cicatrizes. eu estou viva. eu amo, eu sonho. eu, apesar de tudo, estou aqui.

19.6.11

Mamãe foi hospitalizada. Ficou quase uma semana na UTI, pneumonia dupla. Viajei para perto dela. Ela melhorou, voltou para casa, eu voltei para o Rio.

Em casa, na gaveta de sempre, o caderno de contos do meu pai. Ele o escrevia a mão. Sua letra. Seus riscos, suas revisões, os contos que já sei quase de cor de tanto ler e reler.
Peguei o caderno. Botei na minha bolsa, pensando "antes que um aventureiro lance mão". Me imbuí de nobres intenções: "vou xerocar, vou encadernar, vou cuidar".
E, não sei o motivo, retornei o caderno ao saco plástico, à gaveta, intocado.
Se eu não contasse, ninguém saberia.

O caderno não é meu. Era do meu pai, é da minha mãe. Se um dia tiver que ser meu, será. Mas não será a sua cópia. Ela, eu não quero.

28.5.11

O Vitor Cafaggi merece um abraço por esta historinha.


O Blog do Vitor, The Amazing Adventures of Puny Parker, reconta a vida do Peter Parker, o Homem Aranha, desde a infância. E eu nem tenho palavras para dizer o quanto a historinha de hoje me emocionou...

É isso. É para isso que eu escrevo este blog. Para falar com ele, com vocês. E saber que eu sou ouvida. E saber que não é em vão.

28.2.11

Papa, Can You Hear Me?
Music: Michel Legrand
lyrics: Alan Bergman and Marilyn Bergman.

God
Oh God
May the light of this flickering candle
Illuminate the night the way
your spirit illuminates my soul.

Papa, can you hear me?
Papa, can you see me?
Papa can you find me in the night?

Papa are you near me?
Papa, can you hear me?
Papa, can you help me not be frightened?

Looking at the skies
I seem to see a million eyes
Which ones are yours?
Where are you now that yesterday
Has waved goodbye
And closed its doors?
The night is so much darker;
The wind is so much colder;
The world I see is so much bigger
Now that I'm alone.

Papa, please forgive me.
Try to understand me;
Papa, don?t you know I had no choice?

Can you hear me praying,
Anything I'm saying.
Even though the night is filled
With voices?

I remember everything you taught me
Every book 1've ever read.
Can all the words in all the books
Help me to face what lies ahead?
The trees are so much taller
And I feel so much smaller.
The moon is twice as lonely
And the stars are half as bright.

Papa, how I love you...
Papa, how I need you.
Papa, how I miss you kissing me good night...


Papai, você pode me ouvir?

Deus.. Oh deus...
Que a luz desta vela quase apagando
Ilumine a noite
Como o seu espírito ilumina minha alma

Papai, você pode me ouvir?
papai, você pode me ver?
papai, você consegue me encontrar na noite?

Papai, você está perto?
Papai, você pode me ouvir?
Papai, você pode me ajudar a não ter medo?

Olhando pro céu
Parece que eu vejo milhões de olhos
Quais são os seus?
Onde você está agora, porque ontem
Você disse adeus
E trancou as portas?
A noite é tão mais escura
O vento é tão mais frio
O mundo que eu vejo é tão maior
Agora que estou sozinha

Papai, por favor, me perdoe!
Tente me entender
Papai, você sabia que eu não tive escolha?

Você consegue me ouvir rezando?
Alguma coisa que digo?
Mesmo se a noite estiver repleta de vozes?

Eu me lembro de tudo que você me ensinou
De cada livro que eu li
Será que todas as palavras dos livros
Podem me ajudar a encarar as mentiras que encontrarei à frente?

As árvores são tão mais altas
E eu me sinto tão menor
A lua é duas vezes mais solitária
E as estrelas bilham com metade da força

Papar, como eu te amo
papai, como eu preciso de você
papai, como eu sinto falta de você
me dando um beijo de boa-noite.

17.12.10

minha gata muriel, que estava com câncer, morreu.

pai, eu sei que o senhor gosta de bicho. cuida bem dela até eu chegar?