13.7.08

pai, pela primeira vez em muito tempo, eu tive a certeza de que, se você estivesse aqui, bastava dar dois gritos para resolver muito problema.

a sua falta foi extremamente dolorosa. só o senhor faria este trabalho.

21.6.08

hoje é o aniversário do meu pai. ele faria oitenta e um anos.

estou com saudade dele, saudades da gente, saudades de casa. saudades da festa dele, que iniciava o são joão. saudades da minha infância e adolescência. queria voltar e ver só mais uma festa através dos olhos da menina de dez anos que eu era. queria ver a alegria dele comprando os fogos e as bandeirinhas. o trabalho da minha mãe em fazer as comidas de milho, o capricho dela escrevendo G H com canela na travessa de canjica. o laço no meu cabelo, as sardas pintadas com lápis de olho, o batom mais vermelho, o vestidinho de matuta.

a festa mais feliz do ano.

não há gente triste no são joão.

eu estou saudosa, mas não estou triste. viva são joão, painho. são joão está dormindo, não acorda, não! acordai, acordai, acordai, joão!

13.6.08



papai aos vinte e poucos anos, cara de cantor de bolero e olhar de peixe morto :D

11.6.08

Pai, eu tenho novas amigas. As que eram minhas amigas naquele tempo continuam sendo, só que dum jeito mais afastado. Mas é sobre duas novas amigas minhas que eu quero falar.

E por isso falo direto para você, e não sobre você.

A Mani, pai. Eu vejo vocês dois na mesa de mármore lá de casa, conversando, fumando e tomando infindáveis cafezinhos. Eu ouço suas risadas com ela. Ela é promotora e cearense. Pai, o senhor ia adorar a Mani. Eu tenho tanta certeza disso que gosto mais dela por sua causa.

E tem a Helga. A Helga hoje me deixou emocionada prá caramba: ela me deu três coletâneas da Luluzinha. Em preto-e-branco, pai, historinhas maravilhosas que me fizeram rir sozinha e o Fred perguntar lá da sala por que eu tava rindo.

A Helga me deu de presente um pedacinho da gente, pai. O senhor adorava Luluzinha e Bolinha, e comprava dizendo que era para mim, e era, mas o senhor lia e nem lia escondido.

Tenho tantas amigas novas, pai. A todas elas o senhor diria para fazer Direito, ou perguntaria por que não fez direito, menina. O senhor ia tomar café com elas, rir, falar coisas sérias. Susana tá fazendo concurso para promotora, pai. E este ano ela faz quarenta anos. Quando o senhor adoeceu ela tinha pouco mais de dezenove.

25.5.08

meu pai queria muito um filho homem, vieram três meninas.

veio o primeiro neto - e homem, ainda por cima!
papai quis muito que o menino tivesse o nome dele.
ficou querendo.
se aborreceu um pouco, depois passou - e ele ia deixar de curtir o primeiro neto por conta duma coisa besta dessas?
depois ele me fez prometer, meio na brincadeira, que todos os filhos que eu tivesse se chamariam geraldo. geraldo 1, geraldo 2, geraldo 3...

bom, até agora, zero de geraldos por aqui. aliás, zero de netos novos para o meu pai: quatro netos ele tinha, quando morreu, quatro netos continua tendo.

9.5.08

outro dia, abraçada ao meu marido, ouvi seu coração batendo.

lembrei de quando era criança e meu pai dizia que seu coração batia te-la, te-la, te-la.

20.4.08

eu vou falar duma coisa que eu não falo aqui: raiva.

quem me lê aqui, tão serena, apesar de saudosa, não sabe de tanta raiva que eu tive. e do medo. e da dor.

só que eu não sabia lidar com medo e dor, quando papai adoeceu. eu tinha 16, 17 anos. eu só sabia ter raiva. e tive muita raiva. bati muita porta, dei muito grito e, de vez em quando, chorava baixinho atrás da porta do meu quarto.

se ele tivesse feito a cirurgia que o médico mandou.
se ele tivesse emagrecido.
se ele tivesse largado o cigarro.
se ele tivesse feito exercícios.

se ele tivesse duas rodas seria uma bicicleta.

papai viveu a vida dele como quis. certo ou errado, viveu do jeito que escolheu. caberia a mim, sua filha, mandar nele para que ele vivesse mais? caberia ele aceitar médico mandando nele, domando suas vontades, em troca de 20, 30 anos a mais?

isso só ele saberia responder.

da minha parte, humildemente, aviso que não sou anjo de candura e não foi fácil transformar a dor e o medo da vida sem ele num blog que fala de amor.

não foi nada fácil.

não é fácil deixar o egoísmo de lado (ele tinha que se cuidar para cuidar de mim!) e respeitar o que um homem maior de idade e vacinado escolheu para sua vida.

mas lamento. isso eu lamento. 60 anos foi muito pouco. 17 anos de pai foi muito pouco. mas foi o que tinha que ser. foi completo, foi íntegro. meu pai amoroso, brincalhão, teimoso, briguento, mandão, explosivo, carinhoso, engraçado, irresponsável, o que fosse.

só digo que não foi fácil. não é fácil. não sou diferente nem melhor do que ninguém e esse é só o meu jeito.

mas que eu preferia que ele estivesse aqui, ah, preferia. você tem alguma dúvida?